AVANT STAR
29 de maio de 2012
15 de maio de 2012
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29 de dezembro de 2011
15 de dezembro de 2011
23 de novembro de 2011
20 de novembro de 2011
3 de novembro de 2011
1 de novembro de 2011
12 de outubro de 2011
6 de agosto de 2011
Amy Winehouse - um destino inelutável? por Antonio Nery Filho
Recebi, como tantos outros e-mails, um sobre Amy Winehouse. A mensagem continha fotos de diversas circunstâncias de sua vida com a sugestão de mostrá-las a filhos, netos, sobrinhos e amigos, como exemplo contra as drogas. Decidi, num gesto quase impulsivo, responder ao emitente:
Meu caro,
Vejo com tristeza estas fotos e lamento que uma artista extraordinária tenha morrido tão jovem. Contudo, não concordo com as manchetes e com a sugestão de mostrá-las a filho e netos como exemplo contra as drogas.
Acho que podem ser mostradas como tema para reflexão sobre a vida e o que os humanos podem fazer de bom e de ruim. Se é verdade que as drogas produzem efeitos danosos, podem também salvar, a exemplo dos antibióticos.
Creio que atribuir a morte de Amy Winehouse às drogas, é como atribuir ao automóvel a responsabilidade pela má condução por motoristas. As drogas (legais e ilegais), como os veículos, são objetos passíveis de bons e maus usos.
Somos nós, humanos que somos - capazes de pensar, tomar decisões, fazer escolhas, ter sucesso ou fracassar -, os responsáveis pelo que nos ocorre. Pouco sei da vida desta artista, além do que nos mostrou (e mostra) uma media que se interessa apenas pelo dano, escândalo e sofrimento.
Não sei - porque ninguém disse - como foi para Amy lidar com o sucesso em dimensão mundial; como foi para ela separar os amigos honestos dos interesseiros; como foi ser cortejada pelo que oferecia e não pelo que gostaria ou precisava receber.
Acho que o sucesso mata com várias armas em tempos distintos. Fico pensando na dimensão da solidão de uma pessoa como Ami; e a solidão também mata humanos. Claro que posso dizer também, seguindo esta mesma sequência: as drogas matam. E matam mesmo. Só não posso é dar à cocaína, ao álcool, à maconha, atributos que não possuem.
As drogas, como qualquer objeto, necessita de um ato humano para lhes dar sentido e valor. São externos aos humanos, enquanto que a alegria, o prazer, o sucesso, a solidão e tantos outros sentimentos nascem nos humanos, são internos, de nossa natureza.
Por último, penso no nome da artista - AMY - que soa ame, do verbo amar em português, e WINEHOUSE, vinho e casa. Será que estes dois significante em inglês foram determinantes em sua vida ? É possível.
Certo é, que uma jovem morreu quando deveria viver mais, muito mais, pela lógica humana que rege o tempo, porque a lógica dos deuses é outra.
Cordialmente,
Antonio Nery Filho
4 de agosto de 2011
26 de julho de 2011
23 de julho de 2011
14 de julho de 2011
13 de julho de 2011
19 de junho de 2011
10 de abril de 2011
‘A abstinência também é um excesso’
Marina Lemle , Comunidade Segura

ENTREVISTA / Henrique Carneiro
O ideal de uma sociedade abstêmia de bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas não é só irrealizável como indesejável, já que pressupõe uma tutela estatal sobre o direito de livre escolha, os estilos de vida e as práticas corporais.
A afirmação é do professor de História Moderna da USP, Henrique Carneiro, autor de “Bebida, abstinência e temperança na história antiga e moderna”, da Editora Senac – São Paulo, que será lançado dia 19 de outubro, na Livraria da Vila, em São Paulo.
No livro, assim como nesta entrevista ao Comunidade Segura, Carneiro aborda o significado da bebida, seus efeitos, sua relação com o divino e com a história das sociedades e discute a questão da abstinência, do excesso e da temperança, que resultaram na procura de um ponto de equilíbrio e moderação por meio de normas, regras, leis, pedagogias e etiquetas sobre como beber adequadamente.
Doutor em História Social e membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), Carneiro também é autor da “Pequena enciclopédia da história das drogas e bebidas e de Comida e Sociedade: uma história da alimentação”, da editora Campus, e de “Filtros, mezinhas e triacas: as drogas no mundo moderno”, ”A Igreja, a medicina e o amor: prédicas moralistas da época moderna em Portugal e no Brasil”, “Amores e sonhos da flora” e “Afrodisíacos e alucinógenos na botânica e na farmácia”, todos da Xamã Editora. Junto com o historiador Renato Pinto Venancio, ele é organizador de “Álcool e Drogas na História do Brasil”, da editora Amameda, e com Beatriz Caiuby Labate, Sandra Goulart, Maurício Fiore e Edward MacRae – seus colegas pesquisadores do Neip – de “Drogas e Cultura: Novas Perspectivas”, da Edufba.

Qual o principal objetivo do livro “Bebida, abstinência e temperança na história antiga e moderna”?
O principal objetivo do livro é inventariar um conjunto de atitudes sobre o bom e o mau beber ao longo da história ocidental e tentar recuperar noções de virtudes éticas, como a da temperança, como instrumentos úteis para a autogestão das condutas de ingestões, não só de bebidas, como também de alimentos, num sentido de evitar os riscos vinculados a usos problemáticos, abusivos ou compulsivos e buscar uma ética da autorresponsabilidade em relação aos padrões de consumo.
Qual o grau de importância cultural e econômica da bebida ao longo da História?
As bebidas têm uma importância de primeira grandeza de um ponto de vista cultural e econômico. Sempre foram alguns dos mais importantes produtos no comércio desde a Antiguidade até a época moderna. Ânforas com vinho cruzavam o Mediterrâneo na época do Império Romano e o álcool destilado tornou-se, desde o século XVII, um produto central no sistema sul-atlântico, com o rum servindo, ao lado do tabaco e do açúcar, como meio de escambo para o tráfico de escravos. Culturalmente, as bebidas serviram de veículos centrais tanto para a cultura religiosa – de Baco a Cristo – como para o lazer profano.
O livro é dividido em três partes: Antiguidade Clássica, Era Judaica, Cristã e Islâmica e Época Moderna. Por que essa divisão?
Esta divisão busca contemplar a época do paganismo clássico no Ocidente, ou seja, a Grécia e Roma panteístas, o período de advento das três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) que possuem um tradição vinculada entre si e entre seus livros sagrados e, finalmente, o momento de emergência da sociedade moderna, com suas características de globalização e de revolução científica.
Através dos tempos, nas diversas culturas e religiões, e mesmo dentro delas mesmas, as bebidas alcoólicas e seus efeitos são encarados de formas diferentes, da sacralização ao veto completo. Poderia citar alguns extremos?
As bebidas alcoólicas vão da sua divinização, dos cultos pagãos de Dioniso/Baco ao uso litúrgico no judaísmo e cristianismo, a uma condenação como principais fontes da tentação demoníaca ou dos prazeres carnais, como ocorre entre os espartanos na Grécia antiga, no islamismo ou numa parte expressiva do protestantismo contemporâneo que passou a defender a proibição como meio para se obter uma sociedade totalmente abstinente.
Qual a sua opinião sobre a proibição absoluta do consumo de bebidas alcoólicas? Sua visão se aplica também a outras substâncias?
As proibições, seja de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias psicoativas, são mecanismos repressivos de tipo totalitário, pois buscam fazer do Estado o controlador e modelador da vida íntima das populações, buscando impor a abstinência total e compulsória como ideal de sociedade. Esse ideal é não apenas irrealizável como indesejável, pois pressupõe uma tutela estatal completa sobre o direito de livre escolha e sobre os estilos de vida e as práticas corporais.
O que pode ser considerado temperança ou moderação? Existe alguma sociedade, religião ou cultura que domine essa qualidade ou os excessos estão invariavelmente presentes?
A moderação ou temperança tem sido um ideal ético, estético e dietético de boa parte das tradições religiosas, filosóficas e médicas. Seu ponto ideal é a equidistância dos extremos, sendo um deles o excesso e o outro a carência. Assim, a abstinência também é um excesso.
Sua formulação vem dos filósofos clássicos como Platão e Aristóteles, passa pelo Cristianismo e chega aos expoentes do Renascimento e da Ilustração, compondo, assim, uma rica tradição que busca ordenar os comportamentos de risco por meio da autoeducação dos cidadãos que devem buscar os seus próprios limites num processo de autoaprendizado espelhado pelo exemplo dos seus parceiros sociais.
As sociedades e culturas podem ajudar os indivíduos a se manter próximos do ponto de equilíbrio? Normas, regras, leis e etiquetas têm se mostrado eficazes?
Sim, as normas e etiquetas são, em geral, mais eficazes do que as leis em relação a condutas pessoais e corporais, pois o consentimento público é mais convincente do que a coerção estatal. De gregos a árabes, de romanos a persas, os usos das bebidas foram regidos por normas éticas, estéticas e médicas, mais do que por leis impositivas.
As sociedades posteriores à Revolução Industrial viram, entretanto, um novo ordenador das condutas, que é o mercado e suas injunções, se tornar o foco da incitação a um consumo excessivo de tudo, levando a padrões desequilibrados que respondem a necessidades de lucro amplificadas pela técnica insidiosa da propaganda. Nesse universo capitalista, as mercadorias se apossam dos indivíduos, levando-os a uma hipertrofia de consumos compulsivos que desafiam as regras e normas da medicina, do equilíbrio e até mesmo do bom senso.
4 de abril de 2011
14 de março de 2011
13 de março de 2011
24 de fevereiro de 2011
8 de fevereiro de 2011
Carta de Caio Fernando Abreu para Hilda Hilst
Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu
Caio.
18 de janeiro de 2011
"Nós, gnósticos, não aceitamos dogmas, pois o que nos falta é ter um fim, uma meta, um lugar de chegada. Necessitamos de um caminho e não de uma lei. Também recusamos as palavras de autoridade, porque o que é necessário para nós é o verbo da vida. Todas as religiões mostram um caminho com tendência para fora, enquanto que nós vamos para dentro, buscando o oculto".
( Dr. Krumm-Heller )
"Projetistas fazem canais, arqueiros airam flechas, artífices modelam a madeira e o barro, o homem sábio modela-se a si mesmo".
( Buda Gautama Sakyamuni )
7 de janeiro de 2011
INTRODUÇÃO À CIÊNCIA POLÍTICA por MAURO LUIS IASI
Repuplicaram a Republica
Revista e ampliada
Mais excludente e degenerada
Como farsa gasta de tanto encenada
Rés Pública Privada
Rei púbis cano
Cada escravo tem seu amo
Cada coisa tem seu dono
Cada grego seu romano
Cada representante tem seu voto
Cada voto tem seu preço
Cada preço seu mecenas
A coisa pública cheira a mijo
Privada que todo mundo caga
Mas que sempre é o povo que limpa
Depois que pelos ricos (e politicos) é usada
Reinventaram a República
Maquiavelica Roussouneada enLockecida
Na qual só a vontade é geral
A riqueza segue sendo mesmo do Capital
Revista e ampliada
Mais excludente e degenerada
Como farsa gasta de tanto encenada
Rés Pública Privada
Rei púbis cano
Cada escravo tem seu amo
Cada coisa tem seu dono
Cada grego seu romano
Cada representante tem seu voto
Cada voto tem seu preço
Cada preço seu mecenas
A coisa pública cheira a mijo
Privada que todo mundo caga
Mas que sempre é o povo que limpa
Depois que pelos ricos (e politicos) é usada
Reinventaram a República
Maquiavelica Roussouneada enLockecida
Na qual só a vontade é geral
A riqueza segue sendo mesmo do Capital
Entrevista com Henrique Carneiro sobre a Legalização da Maconha
Legalização da maconha "romperia a relação do consumidor com o crime", diz historiador Henrique Carneiro
Pesquisador do efeito das drogas na sociedade, o historiador Henrique Carneiro defende que elas fazem parte da cultura e são essenciais para todas as sociedades. Para ele, a proibição ao consumo da maconha, droga considerada leve, reflete preconceitos históricos no Brasil e no mundo. Henrique é professor de História Moderna na USP e autor de diversos livros sobre o tema. Foi organizador dos livros Álcool e Drogas na História do Brasil, da editora Alameda, e Drogas e Cultura: Novas Perspectivas, da Edufba. Ele falou ao Opera Mundi sobre o plebiscito na Califórnia.
O que vai mudar na Califórnia se for aprovada a lei?
Hoje em dia, o uso medicinal exige a intermediação de uma instituição médica que dê uma indicação para o usuário. O “pretexto” é medicinal. Mas às vezes o cara não consegue dormir, tem angústia, na verdade o uso é muito mais amplo. Eu prefiro dizer que é lúdico. E a nova Proposição 19 autoriza esse uso também.
Mas, na prática, faz muita diferença?
Pode trazer uma grande mudança ao alterar o paradigma. Cria uma ruptura de um paradigma que é global e precisa ser rompido. Altera na prática porque vai criar um clima novo em que não vai ter mais a limitação do direito ao uso. Isso pode se espalhar para outros estados americanos e causar uma mudança imediata na relação com o México, um dos casos mais agudos de violência causada pela guerra contra as drogas. E pode gerar uma influência no sentido de se legalizar no México também. Seria, aí sim, uma alternativa viável para começar a combater o problema estrutural do crime organizado.
O senhor é favorável à legalização?
Eu acho que a maconha tinha que ser que ser legalizada para que houvesse o direito do consumidor não depender de circuitos clandestinos e ligados ao crime. Romperia a relação do consumidor com o crime. E isso é importante, sobretudo porque é um produto de jardinagem que pode ser produzido em pequena escala, numa proporção de auto-abastecimento.
A proposição será aprovada? As pesquisas têm apontado crescente oposição
Mesmo se não for aprovada, vai ser por uma pequena margem. O apoio à legalização nunca foi tão grande, quase metade da população. O debate está sendo feito com grande convicção e vai ficando marcado como uma questão de direito civil, que remete aos aspectos mais importantes da formação das lutas democráticas nos EUA. A ideia é que ser um consumidor de maconha é ter um direito civil, como ser homossexual ou qualquer tipo de opção de vida que tenha relação com questão do próprio corpo. A sociedade aceita que você faça praticamente tudo, inclusive práticas de risco, menos as drogas. Então o plebiscito incorpora à agenda de direitos civis o uso não abusivo de substâncias controladas, que não é garantido em praticamente nenhum país do mundo.
O senhor diz que as drogas fazem parte da cultura de todas as sociedades. Por que então há tanta proibição?
Mais que o simples preconceito, a proibição tem a ver com o interesse político concreto de se reprimir as populações pobres e permitir um pretexto de intervenção social. A grande repressão é contra traficantes e não assaltantes, como se o tráfico fosse a metonímia de todos os crimes. Vide o número de presos, é impressionante como se encarceram as massas. Nos EUA, a grande maioria são negros. Ali como aqui também, há uma pressão enorme no sistema carcerário, que está lotado.
Quando a maconha foi proibida no Brasil?
A primeira menção conhecida que existe na documentação é de 4 de outubro de 1830, que é uma resolução da Câmara municipal do Rio de Janeiro proibindo os escravos do uso do “pito de pango”, como chamavam. A República proclama um código penal em 1890, cujo artigo 159 proíbe substâncias venenosas, mas não há menção específica à maconha. Em 1921 há outro decreto sobre substâncias de qualidade entorpecente. Mas apenas em 1936 a maconha vai ser mencionada explicitamente. É criada uma comissão nacional fiscalizadora de entorpecentes, e acontece uma campanha contra a maconha. A grande criminalização no mundo veio depois do fim da Lei Seca nos EUA. E no Brasil aconteceu de forma simultânea.
Como o Brasil participou desse movimento mundial?
O Brasil de certa forma ajudou a criminalizar a maconha mundialmente a partir de intervenções de médicos e políticos brasileiros, com a estigmatização do uso da maconha, relacionando-a ao ópio na Ásia - o que é improcedente, já que a maconha não tem letalidade e nenhuma síndrome de abstinência. Um exemplo é o médico Rodrigues Dória, que era também presidente da província de Sergipe. No começo do século, Rodrigues Dória diz em um congresso que a ideia de que a maconha é a vingança dos ex-escravos contra seus senhores, que agora escraviza os ex-senhores, como tinha sido o ópio nos EUA. Na verdade toda essa posição é porque era uma droga negra. Tanto que, no início da República, havia uma inspetoria de “entorpecentes, tóxicos e mistificação”, a mesma que combatia a umbanda, o esoterismo e até o espiritismo.
Ou seja, a cultura de uma classe inferior?
Sim, é a exploração da ideia eugenista e racista, de raças superiores, que relaciona a maconha com esses hábitos negros. Essa ideia está presente em todos os clássicos, de Gilberto Freyre, Mário de Andrade e até folcloristas como Alceu Maynard. E isso é muito semelhante ao que aconteceu em outros lugares do mundo, por exemplo, com os árabes nos EUA e na Europa. Mais do que uma droga de pobre, a maconha é uma droga do pobre estrangeiro. E é estigmatizada sempre como sendo uma coisa exótica.
Hoje isso ainda persiste no Brasil?
Sem dúvida. Esse é o fundo da questão. Subsiste um preconceito de ordem social – e falar de ordem social no Brasil é falar em ordem racial – que vê a maconha ligada aos hábitos populares, não à tradição da elite, que consome o álcool sem grande condenação. E hoje é muito pior isso, por causa do sistema que gera. Como a maconha e as drogas em geral se tornaram um circuito de hiperacumulação de capital – é uma das mercadorias mais vendidas no mundo –, seu preço não tem relação com o custo de produção, mas com o custo da proibição. Então tem uma rentabilidade extraordinária, que atrai os meninos do morro, por exemplo, que veem a venda da droga como a única possibilidade de subir na vida. Aí se estigmatiza ainda mais.
Fonte : http://operamundi.uol.com.br/
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